Clubes brasileiros nunca foram tão ricos e tão endividados
O ano de 2012 foi gordo para os bolsos dos clubes brasileiros. Ao mesmo tempo, nunca os cofres das entidades esportivas estiveram tão vazios como no final de 2011. A explicação para este aparente paradoxo reside no aumento do endividamento dos 20 clubes da elite do futebol brasileiro.
De acordo com um estudo da BDO Consultoria, nos últimos cinco anos a receita total dos 20 clubes da elite do futebol brasileiro cresceu 73%, movimentando mais de 2 bilhões de reais. Se os ganhos com as transferências de jogadores forem desconsiderados, o lucro dos times, baseado em bilheterias, patrocínios, marketing e produtos ligados às marcas, cresceu 133%.
Em 2011, o Flamengo arrecadou 185 milhões de reais, mas devia 335. Já o Botafogo, foi o clube que viu sua dívida crescer 134%, nos últimos cinco anos. No total, a dívida dos 4 clubes cariocas (Vasco, Botafogo, Fluminense e Flamengo) cresceu 94%, de 2007 a 2011.
“É recorde atrás de recorde. Recorde em arrecadação e em capacidade de endividamento”, afirma Pedro Daniel, responsável pela Gestão de Esportes da BDO. Ele prevê que o cenário de receitas recordes “não deve mudar tão cedo”.
Este enriquecimento às avessas, acompanhado pelo aumento das dívidas, é um fenômeno que se apresenta desde 2003 e que teve forte alta a partir de 2011, ano em que, pela primeira vez, a classe média – ou classe C – se tornou maioria no Brasil.
Além do aumento da renda do brasileiro, a Copa do Mundo de 2014 no Brasil também é considerada uma grande vitrine para os clubes e jogadores brasileiros – e, consequentemente, para os patrocinadores.
Para Daniel, o clube brasileiro que melhor soube aproveitar essa boa fase econômica do futebol nacional foi o Corinthians.
Desde sua volta a série A do campeonato Brasileiro em 2009, o Corinthians é o clube que mais arrecada no Brasil. Agora, em 2012, o clube se consolidou como o time de futebol mais rico do mundo fora da Europa, ocupando a 31ª posição no ranking dos clubes mais ricos do planeta, segundo a consultoria britânica Deloitte.
Em seu primeiro jogo na Série B do Campeonato brasileiro, o time entrou em campo com uma diretoria que apostava na profissionalização de setores-chave, como o marketing e o departamento financeiro. Desde então, fortes campanhas de marketing, impulsionadas pela contratação de Ronaldo – e, mais recentemente, a de Alexandre Pato – aumentaram a inserção do clube na mídia e trouxeram o torcedor para mais perto do clube. Ou melhor: de seus produtos.
“Hoje, o torcedor do Corinthians, independentemente do nível de renda, compra produtos com a marca do clube”, conta Daniel. “Isso porque o catálogo do Corinthians atende todos os nichos de preço”, explica o analista.
Dívidas. Apesar dos clubes estarem mais ricos, devido ao bom momento da conjuntura econômica do País, muitas vezes o dinheiro vira “ouro de tolo” nas mãos dos dirigentes.
Isso porque, segundo a BDO Consultoria, os clubes ainda não são geridos como um empresa. ”Áreas vitais e de planejamento dos clubes – como marketing e finanças – ainda são dominadas por sócios e não por profissionais qualificados”, afirma Daniel.
Exemplo disso é o Botafogo. Entre 2007 e 2011, o clube teve uma evolução de 45% em seus ganhos,. No mesmo período, sua dívida cresceu 164%. O mesmo aconteceu com o Vasco da Gama, que ganhou 167% mais nos últimos cinco anos, mas se endividou 224%. O único clube que diminuiu suas dívidas entre 2007 e 2011 foi o Vitória, da Bahia.
Contudo, nem sempre as dívidas são um problema e, muitas vezes, são necessárias para modernizar as estruturas físicas dos clubes e aumentar o nível técnico de seus elencos. O Real Madrid, por exemplo, é o clube mais endividado do mundo – a soma beira os 500 milhões de euros. Ao mesmo tempo, sua receita também é a maior do mundo do futebol, com 514 milhões de euros entre 2011 e 2012.
“Não é necessariamente um problema para o clube ter dívidas, desde ela seja equalizada e sustentável”, explica o analista da BDO. “Essa dívida sustentável que acontece com Corinthians e São Paulo, por exemplo, inexiste nos clubes cariocas”, completa.
Cotas de TV e sócio-torcedor. Outra informação que chama a atenção no estudo é a dependência cada vez maior dos clubes em relação às cotas de televisão. Em 2007, a participação das cotas de tevê na receita dos clubes era de 27%; em 2012, a participação saltou para 36%.
Os problemas que essa dependência acarreta são velhos conhecidos do brasileiro e afeta principalmente os calendários do futebol nacional e os horários dos jogos noturnos (às 22 horas na televisão aberta), fonte de reclamação dos torcedores.
A solução para essa dependência das emissoras estaria na diversificação das fontes de receita, segundo aponta o relatório da consultoria. Fontes mais seguras e sustentáveis de renda, como o programa sócio-torcedor, ainda se mostram incipientes no Brasil. Muito popular na Europa, o programa tem a adesão de apenas 0,2% dos torcedores brasileiros, concentrados nos bem-sucedidos programas dos times gaúchos, Internacional e Grêmio, e a alguns outros raros exemplos, como o Corinthians.
Segundo o analista Pedro Daniel, isso se deve, em grande parte, à péssima qualidade dos serviços e à baixa segurança nos estádios brasileiros. Além disso, os preços dos programas ainda estão além do poder aquisitivo da maioria da população, ressalta o consultor.
“O ideal seria criar uma política de descontos e isenções fiscais para o torcedor e para clube que aderem ao programa sócio-torcedor e contribuem para um melhor funcionamento dos estádios e para um aumento do público nos estádios”, conclui Daniel.
Confira abaixo a lista dos clubes que mais arrecadaram em 2011:

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